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Café com o Sensei

Pensamentos e comentários do Sensei Jorge Kishikawa


Últimas postagens:

10-jul-2012

Gashuku 1 - O Gaijin com olhar de tigre

"Sensei, neste gashuku vivi experiências que jamais esquecerei! Percebemos que quando vivemos momentos de extrema atenção e concentração, tendemos a ter "flash backs" de pontos exatos do tempo; de certas passagens, acontecimentos, que vêem a mente como num golpe rápido de shinai, e nos fazem reviver estes momentos muitas vezes mesmo depois de seu real acontecimento.
Desde a saída do templo, tenho convivido com estes insights:

- do treino do Jo, quando, pela primeira vez, tive a honra de fazer dois katas com o Sensei! ( um dos momentos mais marcantes de toda minha trajetória no caminho, INESQUECÍVEL)

- do tameshigiri, sensação indescritível de dividir o aparentemente indivisível, e a constatação do verdadeiro poder da shinken e também a consciência de que tenho muito ainda a aprender para compreender muitos dos maravilhosos mistérios da arte do kenjutsu e iaijutsu.

- do convívio com magníficos colegas que buscam aprimoramento pessoal, e o fazem com uma compaixão ímpar.

Enfim, como ainda me sinto maravilhado por estas experiências, o olhar do Sensei era vigoroso, como havia sido na demonstração pela manhã, um olhar de tigre! Que nos demonstra como andar, apesar de parecer levitar; que nos ensina a
avançar, apesar de parecer invencível e nos mostra pelo olhar toda sua determinação.Fiquei pensando que em uma vida passada
o Sensei foi um samurai vigoroso que devia intimidar seus adversários pelo olhar, assertivo e sereno, de quem sabe o que fazer
e buscar a invencibilidade.
Parafraseando as palavras do Senpai Sanchez: um "Gaijin" (ele fez o gesto das aspas) que encanta e intriga os mestres japoneses e parece engolir a todos com sua energia intensa e positiva.

Domo Arigato Gozaimashitá Sensei!

Ivan (unidade - Belo Horizonte/MG)
 


"...demonstração pela manhã"




(Clique para ampliar)

" A turma de sábado no Gashuku"



06-jul-2012

Shugyo com o Sensei 6 - O ''Duelo'' do Sensei

"Aqui estamos, o Sensei e eu, em um Gashuku (concentração) de três dias no Japão, um Gashuku de Iai com treinos de Jô (bastâo) inclusos.

Este Gashuku não estava nos nossos planos originais, antes da viagem. Isso importa porque no planejamento da viagem, o Sensei programou cada etapa de modo estratégico! Como? Ponderando os recursos* necessários em cada fase, os períodos de "descanso" físico, a logística, enfim, como tirar o máximo de nós em cada etapa, pensando no que já passamos e o que ainda temos para passar, para viver...

Apesar do programa diferente do esperado, quando se está em guerra (ou poderíamos dizer: na vida), os imprevistos se apresentam e temos que lidar com eles!

Pois bem, no terceiro e último dia de Gashuku, o Soke(sucessor) do nosso estilo decidiu promover um shiai entre dois times: japoneses versus gaijins(estrangeiros)! Dois times de oito samurais cada.

O Sensei e eu ficamos no time dos gaijins (o meu caso era óbvio mas, o do Sensei, quem sabe ou pode afirmar?).
De qualquer modo, o fato é que o Sensei, pelo fato de ser o capitao da equipe, tinha um oponente de muito peso (metaforicamente falando), tratava-se de também de um dos professores responsáveis no Gashuku e coordenador de um dojo importante no Estado/Província onde nos encontrávamos.

Eram duas sequencias quaisquer para cada praticante. O shiai estava sendo atentamente acompanhado por pelo menos mais 100 espectadores, todos praticantes de Iai, participantes do Gashuku que estava acontecendo num grande ginásio.

Na minha percepção, havia um toque de tensão no ar, do tipo "teriam os gaijins condições de representar perigo aos japoneses?".

Os três juízes ficavam parados, imóveis, um tempão sem piscar,  com um impressionante nível de atenção, acompanhando os menores detalhes de cada dupla. Sério, era quase como se cada juiz estivesse ali executando as sequências que acompanhava.

Terminadas as duas performances do professor e do nosso Sensei, os juízes deram seu veredicto: 2 x 1 em favor do referido professor. Mas com um detalhe fundamental: o voto para o Sensei foi dado por ninguém menos que Fumitaka sensei, filho do Soke do estilo e, pela ordem natural das coisas, futuro Soke. Ou seja, tivemos um contexto que foi um tanto desconfortável para muitos dos presentes, afinal, na avaliação do futuro Soke do estilo para aquelas apresentações, um "gaijin" (aspas indispensáveis), o nosso Sensei, superou uma referência importante para o estilo no Japão!!

E agora? O que isso significa? Honestamente não me sinto em condições de avaliar os desdobramentos do fato no Japão. Do "nosso lado", o dos gaijins, arrisco dizer que a mensagem é continuarmos treinando, com firmeza, com garra, com fúria, a exemplo do Sensei, pois penso que o espírito samurai que cultivamos dentro de nós aqui no Niten independe de nacionalidade, raça, religião ou qualquer outro rótulo que possamos pensar. Aqueles, como Fumitaka sensei, que estiverem em condições de enxergar e reconhecer isso, o farão!

Omedetô ao Fumitaka sensei pela transparência, omedetô ao Sensei pelo feito e Domo Arigatô Gozaimashita por nos treinar no Espírito Guerreiro!

*entenda por recursos necessários além da bagagem, o tempo, a energia individual de cada um e a conjunta da dupla. Os recursos fazem parte da estratégia...


Time dos Gaijins:


Brasil e Estados Unidos




Brasil, Finlândia e Hong Kong

05-jul-2012

Shugyo com o Sensei 5 - Sensei arruma confusão (quase)

Extra! Últimas notícias!! Últimas notícias do shugyo no Japão: o Sensei quase arrumou confusão com outro cliente do restaurante do hotel!
 
São por volta de 19h15min. Fomos, o Sensei e eu, ao restaurante do hotel para o jantar (aqui no Japão o pessoal costuma jantar cedo!).
 
O fato de eu não comer carne animal causa mais trabalho ao Sensei do que um carnívoro comum daria a ele, afinal, ele está sempre se preocupando com o que eu vou pedir para comer, pois aqui, parece que existem pouquíssimos vegetarianos e praticamente todas as refeições são preparadas com algum tipo de carne.
 
Eis que o Sensei gentilmente pergunta à atendente do restaurante, no balcão, se há alguma opção vegetariana para o gaijin que vos escreve. Antes que a mulher respondesse qualquer coisa, um dos clientes do restaurante, que já estava aparentemente meio bêbado, em uma mesa próxima, solta uma dessas exclamações bem provocativas do tipo: "iiiii gente, mas quem o cara pensa que é para ter esse tipo de frescura aqui??...".
 
Pessoal, não sei não, mas se estivéssemos agora no século 17 aqui no Japão, acho que teriam sido suas últimas palavras!! Eu quase conseguia ver o saque mortal da katana do Sensei cortando o corpo do elemento em dois pedaços (zup!!). Pelos olhos do Sensei, na minha fantasia, teria sido um corte horizontal, separando apenas a cabeça do resto do corpo, que tombaria lentamente sobre a mesa do café da manhã... Bem cinematográfico!
 
Mas um mestre, é um mestre! Fração de segundo depois da provocação, o Sensei se centrou de que não valia a pena ir tirar satisafação e arrumar confusão alí.  Gentilmente pediu à atendente que fizesse um omelete para mim e voltou para a mesa, sereno, elaborando o ocorrido...
 
Para mim ficou muito forte a reflexão de que quase todos os dias nos deparamos com decisões difícieis. Graças ao nosso treinamento no Niten, acredito que temos melhores condições que a média das pessoas para escolher entre o certo e o fácil.
 
Sensei, shitsurei shimashita pelas preocupações com a minha alimentação e domo arigatou gozaimashita pela generosidade!
 

"Em Funajima, ilha onde se travou o duelo entre Miyamoto Musashi e Sasaki Kojiro"

04-jul-2012

Hidensho 7 - Primer intento de ascender


"Durante o treinamento com Sensei, houve dois momentos que me deixaram surpreendido. O Primeiro foi quase ao final do primeiro encontro.
Sensei estava usando Duas Espadas e eu estava em Itto Hasso (posicão da madeira com uma espada). Mas em um momento Sensei colocou as espadas de forma paralela, de frente assim mesmo, com as pontas em direção ao céu... Neste momento Sensei, tive a visão de estar em frente a duas montanhas, tentava encontrar um espaço entre ambos pilares, por mais que tentava, me encontrava com um bloqueio e um contragolpe potente como um relâmpago, potente como o trovão.
Me encontrava frente a um novo Kamae (postura), uma postura potente e impenetrável. Tentei trocar de kamae, fazer Itto Jodan (posição do fogo com uma espada) ou Itto Chudan (posição do meio com uma espada), mas sentia que o Kamae se unia a minha postura, sincronizava-se e sentia que não encontrava o caminho. Agora sigo refletindo e visualizando o Kamae, das duas montanhas.
 
O segundo momento foi durante o treinamento pessoal. Sensei foi me mostrando através de todas as armas que ocupamos as diferentes opções de ataque e contra-ataque. Mas em um momento Sensei estava em Itto Katate Gedan e aplicou o primeiro dos katas de Myamoto Musashi Sensei, Sassen. Técnica precisa e fatal. Não importa que Kamae tenta fazer. Sassen é certeiro.
Mais de uma vez escutei que os mestres colocam como o primeiro kata de sua escola, aquele mais eficaz e que é o resultado da prática constante. Sensei me mostrou como os katas , antigos e tradicionais, vão tomando vida. Os Katas que aprendemos não estão escritos e aplicados de forma pausada, estão presentes na definição de um combate e dão a vitória a aquele que los traz a vida.
 
Domo Arigato Gozaimashita Sensei por dar vida as antigas tradições."
 
Jaime Lopez (Unidade - Chile)
 

ilustração: Luigi (unidade - Vila mariana/SP)
Sassen

 

02-jul-2012

Shugyo com o Sensei 4 - Onde fica o Hagakure?

"Hoje testemunhei mais um fato que caracteriza a perda progressiva do código samurai no Japão. Código este que curiosamente (e felizmente para nós!!) vem sendo resgatado pelo Niten do Brasil, provavelmente um dos pouquíssimos lugares no mundo onde esse resgate está ocorrendo!

Chegados à cidade de Saga almoçamos rapidamente. O Sensei pediu um táxi para irmos ao local onde Tsunetomo Yamamoto e Tashiro Tsuramoto, autor do Hagakure, se encontraram durante anos para o primeiro contar ao segundo as histórias que falavam dos katas do bushido durante uma parte do período feudal do Japão.
O táxi chega rapidamente ao hotel e seguimos. O impressionante foi que o taxista, um jovem senhor da própria região, simplesmente não conhecia o local, nem ouvira falar do Hagakure! Foi o Sensei quem mais ajudou o taxista a encontrar o caminho. (pois é, até taxista japonês o Sensei ajuda no caminho! E no Japão!!).
Chegamos a uma estradinha estreita, mal dava para o carro passar. Chovia um pouco, foi difícil encontrar o lugar, mas chegamos! O taxista ficou aguardando no carro para não perdermos tempo chamando outro no momento da volta.

Trata-se de um bosque de vegetação bem verde, pelo menos nesta época do ano, composta de árvores, arbustos e farta em musgos pelo chão, principalmente sobre as pedras, inclusive nos degraus da trilha em aclive que nos levou ao monumento de homenagem ao Hagakure. O cheiro de mata verde e úmida era bem presente, aquele local me transmitiu muito bem-estar e tranquilidade. Quero crer que as conversas entre Yamamoto e Tsuramoto fluiram ajudadas pelo ambiente favorável do lugar...

O Sensei, lépido como de costume, já me indicou o local para a foto, posicionou-se um pouco à frente do monumento e aguardava que eu concluísse o posicionamento da câmera sobre uma das pedras e sob um dos nossos guarda-chuvas (dica de viagem com o Sensei: zele sempre muito bem pelo equipamento que ele te confiar!). Circulamos pelo local enquanto o Sensei me contava que os manuscritos do ex-samurai (aliás ambos Yamamoto e Tsuramoto foram samurais que tornaram-se monges) foram encontrados somente após a sua morte e felizmente hoje estão disponíveis a nós!

O acesso que temos aqui no Niten ao aprendizado dos katas do bushido é raro! Acho razoável inferirmos que, se nem o taxista local conhecia a existência do Hagakure, provavelmente poucos hoje no mundo estão resgatando esse código de conduta tão importante! Domo Arigato Gozaimashita Sensei por mais essa contribuição para os nossos caminhos!"



"Nas origens do Hagakure"

29-jun-2012

Shugyo 3 - Treinar para mudar

"Normalmente vou buscar minha esposa no consultório dela durante a semana, à noite por volta das 22h, e voltamos para casa a pé. Poder andar a pé para se locomover de casa ao trabalho é uma bênção dos céus para paulistanos como nós dado o caos diário do trânsito.
 
Quando não posso ir buscá-la, por qualquer motivo, acabo ficando preocupado por ela voltar sozinha, porque sabemos bem, infelizmente segurança está entre as maiores fraquezas da nossa sociedade atual.
Mencionei acima apenas dois exemplos, transporte e segurança, que são problemáticas sociais constantes nas nossas vidas, pelo menos em boa parte das grandes cidades do Brasil.
Aqui no Japão estou vendo uma sociedade onde é possível andar calma e tranquilamente pelas ruas sem aquela tensão que carrego nas costas quando estou andando a pé em São Paulo. A tensão causada pelo medo de ser assaltado a qualquer momento e em qualquer lugar (até arrastão em restaurante já virou "lugar comum"!!). Sou testemunha de que, no Japão, isso é algo impensável, os japoneses nem imaginam o que passamos no Brasil!
Na minha opinião, pensando de maneira mais geral, os problemas de transporte público e segurança são problemas que nós mesmos, sociedade brasileira, criamos para nós! Ou seja, dado que não está bom, precisamos mudar! Melhorar!
E o que o Niten tem a ver com isso? O que nós, samurais modernos, temos com isso?
Tudo! Nós temos tudo a ver por dois motivos:
1) fazemos parte da sociedade
2) estamos treinando e trabalhando para melhorarmos como seres humanos.
 
No momento em que buscamos e efetivamente trabalhamos para nos aperfeiçoar, ou seja, melhorar a forma como atuamos em nossas vidas baseados nas virtudes samurais, estamos iniciando um ciclo virtuoso.
Penso que funciona mais ou menos assim:
Cada um de nós começa a treinar e a se aperfeiçoar nas virtudes (respeito, coragem, humildade, sabedoria, lealdade) conosco, com a gente mesmo. Isso começa a se transformar em nós de forma que passamos a ser mais samurais na vida. Sob a ótica do dia a dia, teremos mais atenção com os membros da nossa família, nossos amigos, colegas do Niten, da escola, do trabalho, da faculdade. Valerá também para os nossos vizinhos, para os desconhecidos e até para os bichos de estimação...
 
Percebem aonde vai isso?
Estamos mudando o mundo meus caros, e para melhor. Muitos lembrarão do belíssimo diálogo, na minha opinião, entre a personagem do Tom Cruise e o Katsumoto onde este se questiona qual é a valia dos samurais e do Bushido agora, nos tempos "modernos"? Ao que o Tom Cruise responde que não conseguia pensar em nada mais necessário do que isso nestes tempos.
 
Pois aqui estamos nós, samurais modernos, prontos para continuar contribuindo para um mundo melhor. Seja na nossa casa com a nossa família, seja na hora de selecionar melhor um político para ganhar o nosso voto e causar alguma melhoria no transporte e na segurança públicos...
Ninguém nos prometeu que seria fácil. Mas creio que aqui no Niten, os nossos treinamentos físico, mental, espiritual, sejam eles de  qualquer ordem, passados a nós pelo Sensei, já nos dão as armas e o preparo necessários para continuarmos servindo à mudança para que o mundo seja um lugar cada vez melhor.
Vou ousar tomar emprestadas as palavras de Musashi Sensei no Livro dos Cinco Anéis (Go rin no sho):
"reflita bem sobre isso"!
 
Domo Arigatou Gozaimashita!"



Andando sem tensão

28-jun-2012

Kenjutsu - Nito Migi Waki Tsuki

27-jun-2012

Shugyo 2 - Como somos percebidos?

"Recém saídos da caverna onde Musashi Sensei escreveu o Livro dos Cinco Aneis (Gorin no Sho) fomos almoçar em um pequeno  restaurante típico da região, ali perto, na beira da estrada mesmo (daqueles da história do sonho de uma vida inteira no tempo de um cozinhar de castanhas).
 
Durante o almoço, um dos mestres  (Niten Ichi Ryu do Japão) e o nosso Sensei conversavam amistosamente. Eu apenas procurava me manter atento à conversa o suficiente para sintonizar a frequencia porque infelizmente não entendia quase nada do assunto. Pescando uma ou outra palavra da conversa que me eram familiares, senti que Shigematsu Sensei elogiava o nosso Sensei e o Sempai Wenzel.
 
Pedi licença a eles perguntei ao Sensei sobre o assunto ao que ele resumiu: "Ele estava dizendo que os nossos mestres e colegas de Niten Ichi
 Ryu do Japão ficaram impressionados quando viram o Sensei treinando 9h por dia em três turnos de três horas, o sempai Wenzel ficar com ambos os pés sangrando e mesmo assim continuar treinando até o fim, sem reclamação, nem facial...
 
Eis que curiosamente minha dor nas costas e no joelho direito sublimaram naquele momento, como num passe de mágica!
 
Bom assim, não!?!
 
Domo Arigatou gozaimashita ao mestre do Japao, ao nosso Sensei e ao Sempai Wenzel por mais esta lição...


Conversas na parada

26-jun-2012

Kenjutsu - Nito Gedan Tsuki

25-jun-2012

Shugyo com o Sensei 1 - Melhorar o mundo

A partir de hoje, colocarei as palavras do aluno Sanches diretamente do Japão:
 
"Osato sensei, Mano sensei e sempai Araki vieram nos buscar, Sensei e eu, na manhã de Domingo para um passeio. O dia estava chuvoso, aquela garoa fina e um pouco fria, bem típica de São Paulo nesta mesma época do ano, mas  estávamos em Sendai, cidade no norte do Japão.
Já no carro, Mano sensei colocou um DVD sobre o Tsunami ocorrido 1 ano antes. O video mostrava muito das partes que ficaram parcialmente destruídas, muito parecidas com as cenas que vimos na TV no ano passado. A reportagem era bem feita e tinha cerca de meia hora de duração, mas não mostrava a área que estávamos prestes a conhecer. Andamos cerca de meia hora mesmo, até um local descampado e plano, uma área enorme que poderia comportar uma cidade pequena. Descansando os olhos no solo dava para notar os contornos retangulares definidos no chão de quando em quando. Eram as "sombras" das casas que até o evento do tsunami ainda estavam lá, com seus móveis, decorações e principalmente: moradores.
 
Paramos o carro à base de um pequeno monte, em frente a uma escadaria de uns trinta degraus. Subimos com flores e incensos e chegando no topo haviam várias outras flores e insensos claramente recém colocados ali por outrem. Olhando ao longe em todo o nosso entorno era possível ver aquele grande descampado plano que, de acordo com nossos gentis anfitriões não aparecera na midia porque não havia o que mostrar, não havia mais nada ali depois que as águas levaram absolutamente tudo. Era provavelmente maior garantia de audiência mostrar na TV as casas semi-destruídas, os carros e barcos revirados, melhor que o Nada.
 
Os textos budistas falam muito do conceito de impermanência. Para mim, o sentimento que marcou aquela visão só fez reforçar esse conceito, estamos aqui realmente de passagem meus caros. O que nós, samurais modernos, precisamos deixar aqui nesta encarnação para aqueles que amamos? E para aqueles que consideramos e respeitamos? E para os outros? Que tipo de energias estamos fazendo circular neste mundo? Honra, coragem, respeito, compaixão, sabedoria, lealdade e razão, será que  estamos conseguindo 1) entender de verdade o que essas virtudes significam, 2) vivê-las no nosso dia-a-dia e 3) passá-las aos nossos próximos?
 
Talvez sejam necessárias algumas encarnações para chegar lá. Não importa, só interessa seguir adiante. A vida é curta e dura! Disso muitos de nós já sabemos. O que fazer então com o tempo que nos resta aqui? Treinar, treinar e treinar as virtudes. Como? Acredito que um bom começo seja mantendo regularidade nos seus treinos no Niten, o resto vai acontecendo nas outras áreas da vida com o tempo, acho que é como funciona para todos nós. De uma coisa tenho convicção: é um dos caminhos para aproveitar a vida e não desperdiçá-la...
 
Gostaria de dedicar esse texto em homenagem aos nossos irmãos japoneses mortos no tsunami de 2011.
Domo Arigatou Gozaimashita ao Niten e ao Sensei pela oportunidade!
 
 



"Nenhuma casa, nenhuma vida. O nada"



"Chegando ao Japão, uma prece a todas as vítimas do tsunami em Ishigaoka, onde não sobrou nenhuma casa ao redor deste pequeno monte"




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