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Café com o Sensei

Pensamentos e comentários do Sensei Jorge Kishikawa


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19-out-2011

Morte no Judô

Trago esta matéria veiculada na mídia japonesa neste mês:

"A Japanese court has found a martial arts instructor guilty over the death of a six-year-old boy AFP

A Japanese court on Wednesday found a martial arts instructor guilty over the death of a six-year-old boy, a court official said, in the first criminal case over judo training in Japan.

The Osaka District Court found the instructor guilty of causing the boy’s death by repeatedly slamming him to the floor during training, ordering the defendant to pay a fine of one million yen, the official said.

It is the first criminal case filed by Japanese prosecutors against judo trainers, according to a victims’ group, despite over 100 child deaths blamed on harsh training or hazing between 1983 and 2010.

The 36-year-old instructor, who owned a private judo club in Osaka, admitted he threw the boy excessively in training. The boy died in November last year from brain swelling, local reports said.

Ryo Uchida, associate professor at Nagoya University Graduate School of Education and Human Development, said at least 114 deaths during judo training had been reported between 1983 and 2010 at schools alone.

“The number of children’s deaths, including those outside of schools, like the case of Osaka, remains unknown,” Uchida told AFP.

“These serious accidents show that even experienced judo practitioners could give training inappropriately and cause grave injuries or death,” he said.

“Instructors must be well aware of the risk of brain injuries and be prepared for emergency treatment.”

Keiko Kobayashi, whose youngest child suffered brain damage when he was 15, welcomed the “historic” ruling but questioned if the one million yen fine was sufficient “after one child’s life and future was lost.”

Judo, which became an official Olympic sport at the 1964 Tokyo Games, has long been seen as a respectable tool for training the minds and bodies of young Japanese and forms a major part of military and police training.

But many argue that abusive trainers are able to escape criminal charges due to the physical risks inherent to the sport.

The All Japan Judo Federation, which recognizes 86 judo incidents—some of them fatal—in the eight years to 2011, revised safety guidelines in June to warn against the risk of head injuries."

 

Traduzido em Português:

"Instrutor de Judo considerado culpado por morte de criança durante o treinamento

Na quarta feira um tribunal Japonês considerou culpado um instrutor de arte marcial pela morte de um garoto de seis anos, de acordo com um oficial de justiça, no primeiro processo criminal sobre treino de judo no Japão.

O fórum de Osaka considerou o instrutor culpado de causar a morte do garoto por arremessa-lo repetidas vezes ao chão durante o treinamento. O acusado terá que pagar uma multa de um milhão de ienes, de acordo com o funcionário.

Este é o primeiro caso aberto por promotores japoneses contra instrutores de judo, de acordo com um grupo de vitimas, não obstante mais de 100 mortes já terem sido atribuídas a treinamento severo ou trotes entre 1983 e 2010

O instrutor de 36 anos, que possuia uma escola de judo em Osaka, adimitiu que arremessou o garoto excessivamente durante o treinamento. O garoto faleceu em novembro do ano passado de edema cerebral, de acordo com reportagens locais.

Ryu Uchida, professor adjunto na Nagoya University Graduate School of Education and Human Development, disse que pelo menos 114 mortes durante treinos de judo foram relatadas entre 1983 e 2010 apenas em escolas.

"O número de crianças mortas, incluindo aquelas ocorridas fora de escolas, como o caso de Osaka, continua desconhecido", disse Uchida à AFP

"Esse acidentes sérios mostram que mesmo judokas experientes são capazes de ministrar treinamento de forma inadequada e causar lesões graves ou morte", ele disse

"Instrutores devem estar bem conscientes do risco de lesões cerebrais e estarem preparados para tratamentos de emergência".

Keiko Kobayashi, cujo filho caçula sofreu lesão cerebral aos 15 anos, comemorou a "histórica" decisão, mas questionou se a multa de um milhão era o suficiente "após a vida e futuro de uma criança ter sido perdida"

O Judo, que se tornou oficialmente um esporte Olímpico durante as Olimpíadas de Tóquio em 1964, tem sido vista há um longo tempo como uma respeitável ferramenta para treinar as mentes e corpos dos jovens japoneses e forma a maior parte do treino militar e da polícia.

Mas muitos argumentam que instrutores abusivos conseguem escapar processos criminais pelos riscos físicos inerentes do esporte.

A All Japan Judo Federation, que reconhece 86 incidentes no judo - alguns dos quais fatais - nos últimos 8 anos, revisou suas orientações de segurança em junho para alertar sobre o risco de traumatismos cranianos."
 



Antes de dar qualquer palpite, reflita.
Não seja afoito para não dar uma opinião superficial de um leigo, que nunca deitou e rolou em um tatame.
Feito isso, na minha opinião, acredito que você pode dar a sua posição.
A minha?
Está bem escrito lá no Shin Hagakure (ed. Kendoonline), pag 173:

UM TOQUE BASTA

“Quanto menos esforço, mais rápido e forte você se torna”
Bruce Lee


 

Era um final de semana, um aluno me trouxe um assunto delicado em relação à prática do Tsuki, “golpe da estocada”, ao pescoço do adversário.

Como praticante do Kenjutsu, se mostrava preocupado pois estava com hérnia de disco, precisamente na região cervical (pescoço). E com toda razão.

No kendo, um tsuki é considerado válido quando é o suficiente para "deslocar" o pescoço do oponente para trás. Eu sei como é isso. Treinei exaustivamente por décadas este golpe.

Na década de 80, quando participava de torneios, só éramos eu e meu irmão aplicando os golpes tsuki.

No entanto, percebi sobre a ótica médico-desportiva que este golpe esconde um grande perigo: lesão da coluna cervical acarretando a já conhecida hérnia de disco.

Muitos professores no Japão me "consultavam" sobre a dor que tinham no pescoço e algumas delas iam dos braços às mãos. Mediquei-os sempre que me consultavam. Ou seja, ao longo das décadas de treinamento, o que era para ser um esporte saudável se tornava causa de grandes danos.

Este fator foi decididamente o determinante para a orientação que tenho dado no treinamento do kenjutsu. Entendo que sendo uma espada real, a katana, os golpes não precisam "deslocar" ou "empurrar" o adversário. Ou, melhor dizendo, se fosse uma katana mesmo, uma perfuração de um centímetro já seria fatal para lesar as partes vitais do oponente.

É possível que haja alguém desinformado que não compreenda a validade de um tsuki no torneio de kenjutsu por achar que faltou "força" para deslocar o adversário.

Compreenda: não há necessidade de "deslocar" o pescoço. Um toque basta.

O importante é atingí-lo.”
 

Ou seja, o que ocorreu neste caso no judo, considero-o inaceitável.
Um instrutor que leva o treinamento as ultimas consequências, como neste caso, deve ser banido imediatamente de sua organização.
Surpreendente foi saber que houveram tantas mortes nesta modalidade.
1.000.000 yenes são U$ 10.000.

11-out-2011

Naginata - Uchikote

05-out-2011

O Resgate 9 - O primeiro pilar

Os três pilares do Resgate da Espada.

"Na Europa, mais especificamente na Alemanha, um trabalho similar está sendo feito, em relação à espada ocidental medieval. Mas os europeus têm uma desvantagem importante para a boa reprodução das técnicas antigas: diferentemente do Japão, onde as técnicas foram conservadas intactas pelos katas dos estilos antigos, na Europa isso não ocorreu. Para os europeus, então, o caminho para esse resgate é o do estudo de gravuras, descrições textuais, obras de arte, além de deduções a partir das próprias características das armas utilizadas na Idade Média européia.}
A preservação das técnicas antigas nos katas representa uma dívida que temos com os grandes mestres que nos deixaram o legado da essência do combate com a espada samurai. Mestres importantes no cenário cultural japonês presentearam, ao longo das últimas décadas, o Sensei Jorge Kishikawa com ensinamentos preciosos sobre como os samurais lutavam séculos atrás. Esses mestres, por sua vez, receberam esses ensinamentos de outros que, como eles, colocaram suas vidas a serviço da preservação das antigas escolas marciais do Japão, permitindo que o resgate histórico hoje desenvolvido no Instituto Niten possa ser feito com fidelidade e compromisso. Os treinos dos katas no Instituto Niten constituem o primeiro Pilar do Resgate da Espada empreendido pelo Sensei Jorge Kishikawa e seus alunos."

 

imagens sugestivas do combate com espada medieval


Falando com franqueza, acho louvável e descomunal o trabalho pretendido para resgatar as técnicas da espada medieval. Reconstituir os combates baseados em gravuras ou livros não será nada fácil, ou até impossível.
Digo isto porque, no Japão, os pergaminhos antigos ou os certificados (makimono) , muitas vezes apresentam gravuras para ilustrar determinada técnica, mas, sinceridade a parte, fogem muito da realidade observada ao se fazer os katas.
Inevitável é que ao tentarmos decifrar a posição ou técnica a partir de uma determinada gravura, acontece o seguinte: cada um observa e interpreta conforme a sua imaginação.  Ou seja, cada um executa a sua maneira e interpretação, fará um postura diferente, e logicamente, longe de ser a preterida pelos fundadores . Cada um vê o que quer ver...

A sorte é que no Japão, temos os katas, que foram guardados a sete chaves, ou seja, intactos da forma como deixada pelos fundadores, de forma que cada um NÃO poderá fazer do jeito que acha ser, ou do jeito que quer ver.
Treinar exaustivamente estes katas permite a aqueles que utilizam o equipamento de protecao (bogu), a ter um vislumbre, um achado que certamente os antigos descobriram ao uitilizarem em seus combates reais. Aproximar -se deles , na minha opinião, é o caminho para a iluminação, o Satori da Espada.

E há somente UMA única maneira de se golpear para cada kata. Aquele que descobrir esta conexão, terá descoberto o Satori deste kata.

É o que estou buscando.


Gosho Sensei, o mestre guardião das técnicas de Miyamoto Musashi

30-set-2011

O Resgate 8 - Diferenças do Kenjutsu e do Kendo 5

 


Esta última imagem (Cs 26/set - O Resgate 4 - Diferenças doKenjutsu e do Kendo)  fala sobre a posição (kamae) a ser adotada pelos combatentes. Os dois combatentes estão com a ponta de suas espadas voltadas para trás, conhecida como a posição de waki, sha, in ou outras denominações, dependendo da escola.
Apesar de ser uma posição um tanto inimaginável aos olhos de quem não está habituado a ver combates samurais,  diz-se  que foi com essa que  Miyamoto Musashi derrotou seu adversário Sasaki Kojiro. Desta posição, emergem golpes ascendentes, muitas vezes sobre os flancos do oponente.


Enquanto que no Kendo, a posição é uma só, com a ponta apontada sobre a garganta do oponente, no Kenjutsu há dezenas de posições a serem aprendidas. Há dois motivos que explicam o por quê de se utilizar apenas a posição com a ponta na garganta no Kendo:

A primeira remonta no período pós-guerra (1945), quando o HQ americano proíbe qualquer prática marcial por considerar subversiva. Esta proibição dura quase uma década, quando então encaminhou-se uma proposta de se criar uma modalidade de esgrima (semelhante a europeia, mas com as duas mãos sobre o cabo), obviamente com a conotação puramente esportiva.

A segunda por que escolas como Onoha Ito ryu , cujos katas se originam desta posição , influenciaram (e influenciam) em muito seus dirigentes.

O Kenjutsu, por outro lado, tem como objetivo , no tocante as posições, buscar as respostas para as vantagens e desvantagens de cada uma delas.

Em termos estratégicos, podemos dizer que se adota uma posição (kamae) tendo em vista uma determinada intenção. O prazer em se treinar o Kenjutsu reside aí: conhecer as intenções de cada posição e adequar se a ela conforme os preceitos lógicos da estratégia. Enquanto se vai conhecendo e experimentando as táticas e estratégias a serem adotadas, vamos de encontro as conclusões que pouco a pouco vão desmistificando as lendas , suposições ou "achismos" sobre os combates com a espada samurai.

É conhecer a história com o próprio corpo.

29-set-2011

O Resgate 7 - Diferenças do Kenjutsu e do Kendo 4

"Padronização do comprimento da espada para cada categoria.": Este termo se aplica ao regulamento no Kendo.
Mas, não ao Kenjutsu.
Os samurais podiam escolher o tipo, o peso  e comprimento da katana que preferiam utilizar (imagine se não pudessem!)
Alguns preferiam as mais longas (como Sasaki Kojiro, um dos adversários de Miyamoto Musashi) outros as mais curtas, dependendo da escola (estilo) que pertenciam. Alem de que, padronizar o comprimento de qualquer arma , seja ela o que for, não esta dentro dos escopos do estudo da estratégia.
Por esta razão, no Kenjutsu, você poderá escolher a espada que melhor lhe cair.  Alias, não só "pode", mas "deve" escolher o comprimento de acordo com a estratégia a ser adotada . Foi assim que Miyamoto Musashi derrotou Sasaki Kojiro: escolhendo uma espada mais longa que o seu oponente.
 



Outra diferença fundamental entre o Kenjutsu e o Kendo é a escolha de armas como ocorre nesta foto.
Aqui, vemos a espada menor (wakizashi) do lado esquerdo entrando sobre o direito para golpear. A razão do combatente do lado direito soltar a mão do cabo visa impedir que o da esquerda imobilize (com a outra mão vazia) o seu antebraço, pois caso ocorra, estará em desvantagem.
A imobilização de um dos membros faz parte da estratégia do combate com espadas menores e aqueles que souberem desta lei, nunca deixarão os seus oponentes se aproximarem.
O combate contra um expert em arma curta é dificílimo e somente aquele que conhecer o uso dela poderá vencê-la.
Para se ter ideia de como é lutar com um praticante com a espada menor, sugiro que assista o filme Tasogare Seibei, que traduzido ao português está sendo comercializado como O Samurai do Entardecer.
Digo aos alunos que o uso da espada menor é imprescindível para alimentar a coragem no combate.
Aquele que dominar o uso da espada curta, alem de alimentar a sua coragem no combate começará a enxergar detalhes que não veria, caso estivesse com a espada longa.
Coisas da lei da Estratégia. Coisas do Heiho

28-set-2011

O Resgate 6 - Diferenças do Kenjutsu e do Kendo 3

Uma diferença marcante do Kendo para o Kenjutsu está bem ilustrada nesta foto:

 

O praticante da direita avança por baixo da espada do oponente e corta o seu antebraço em golpe ascendente (de baixo para cima), aplicando o Utigote (parte interna do antebraço).
O Kenjutsu utiliza amplamente os golpes de baixo para cima . O Kendo, não.
O Kenjutsu surgiu há 700 anos, após a invasão (fracassada) de Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Até então, os combates com a espada eram definidos pelo uso da força e agilidade. Aquele que tinha a maior força muscular, ou aquele que era ágil e esperto tinha a vantagem. Com a invasão dos mongóis, os samurais viram-se obrigados a aprimorar a técnica no manuseio da espada para se fortalecer diante de um outro possível ataque, surgindo então o termo Ken (espada) e Jutsu (técnica). A partir dessa época, passa a prevalecer a técnica sobre a força. A técnica sobre a velocidade. A técnica, o Kenjutsu , passa a ser a soberana para o sucesso tanto para a conquista bem como para defender as suas terras. É nesta época que confecção de espadas ganha respeito. A confecção das katanas tem de acompanhar a evolução técnica.
Em termos práticos, a espada samurai, para ser totalmente bem aproveitada enquanto arma, deve ser golpeada de cima para baixo (como ocorre no Kenjutsu e no Kendo), bem como de baixo para cima ( Kenjutsu).
Os cortes de baixo para cima são desferidos, como nesta foto, no antebraço, nas pernas, no abdomen. Quando aplicado no abdome, pode ser aplicado com uma mão ou ambas as mãos, geralmente da posição waki (espada na cintura). É denominda de gyaku kesa.
O praticante de karate, kung fu ou qualquer outra modalidade que utiliza as pernas para o chute sabe que sem este o combate perde sentido. Combater esperando que o oponente venha só com as mãos de cima para baixo impede que a arte evolua por completo, enquanto combate. Quantas vezes já não vimos grandes "feras" indo a nocaute ao levar um chute de baixo para cima como aquele do Anderson Silva sobre o Belfort?

Bem, em termos de combate com a espada, para aplicar o utigote , é necessário , principalmente, que o seu oponente esteja com a mão esticada para a frente (como a posição tchudan, ilustrada nesta foto). Isto nos leva a concluir que, diante de um exímio praticante, especialista em utigote, adotar a posição tchudan era demasiadamente arriscado. Quando falo "exímio praticante", quero dizer aquele que vem com a espada, de baixo para cima, com a velocidade de um projetil...você quase não vê, pois a sua própria espada impede de ver o que se move abaixo dela.

Tal fato demonstra que era mais do que necessário dominar todas as outras posições do combate, o que, nos dias de hoje, vai de encontro a proposta do Instituto Niten : adotar todas as posições e técnicas com a espada samurai.
E isto tem nome: Kenjutsu.




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